POR RAFAEL CAMPOS
No imbricado e, por vezes, cínico jogo político, “é preciso estar atento e forte”, como diz a música. Na levada do dia a dia, entre boletos que surgem à porta e desafios no trabalho, na escola e na família, é muito fácil cair em ciladas no território do lugar-comum.
O termo polarização foi eleito por candidatos de variados espectros políticos, pela mídia, por especialistas e por marqueteiros como persona non grata. Todos a rechaçam. É fácil, portanto, compreender esse movimento como salutar e necessário. Entretanto, na prática, a toada é bem diferente. Ninguém quer, mas todos aproveitam — e muito bem — dessa tal polarização.
O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), em sua primeira fala após decidir lançar-se ao Planalto, disse que, se eleito, dará, numa canetada, ampla e irrestrita anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. Com isso, manda um claro recado aos bolsonaristas e ao campo progressista. Disse ainda que “a polarização está chegando a um grau insustentável”. Ora, é servindo-se dela que ele pretende unir o país?
Há outro detalhe. Quando se fala em polarização, o desejo de “unir o Brasil” sempre transparece nos discursos políticos. Mas eu perguntaria: unir o Brasil em torno de quem ou de quê? Do senhor Mercado, que já sabemos não ser garantia de uma vida melhor para a população? Ou em torno dos bancos, com seus juros exorbitantes?
Não consigo pensar em união que não seja em torno dos mais pobres, dos que lutam de sol a sol, da metade do país que ainda não tem saneamento básico, dos pretos que seguem na mira do revólver, das mulheres vítimas de feminicídio, dos jovens sem perspectiva, dos trabalhadores espremidos entre o salário curto e o custo alto da sobrevivência. Desconfio que essa tal união almejada seja em torno de um grande acordo, um acordão: “Com supremo, com tudo”.
Porque, no fim das contas, esse discurso contra a polarização quase nunca é um chamado sincero à pacificação nacional. É, muitas vezes, apenas um arranjo retórico para despolitizar o conflito real, suavizar desigualdades brutais e vender como moderação aquilo que, no fundo, é conveniência.
Talvez o problema não seja a polarização em si, mas o que se faz dela. Há divisões que precisam mesmo existir. Há antagonismos que não podem ser dissolvidos em nome de uma falsa harmonia. Afinal, como conciliar, sem tensão, o privilégio de poucos e a ausência de direitos para tantos? Como pedir moderação a quem vive permanentemente no limite?