Eleições 2026: Zema endurece, Flávio suaviza

POR RAFAEL CAMPOS


No tabuleiro político que se desenha para a próxima disputa presidencial, dois movimentos distintos chamam atenção dentro do mesmo campo ideológico: o de Flávio Bolsonaro e o de Romeu Zema. Ambos parecem disputar, em graus diferentes, a herança do capital político do bolsonarismo, mas o fazem por caminhos quase opostos. 

Flávio Bolsonaro aposta na construção de uma imagem mais moderada. Seu posicionamento recente sugere a incorporação do arquétipo do “bom moço”: alguém mais racional, ponderado e capaz de dialogar para além da base ideológica mais radical. A estética da comunicação acompanha essa estratégia — menos gestos impulsivos, menos emoção explícita, mais controle de imagem. Não há mais o filho que reage visceralmente em defesa do pai. Ao contrário, a presença de Jair Bolsonaro aparece diluída, quase simbólica — como no detalhe de um quadro ao fundo, em um dos vídeos mais recentes. 

Essa escolha não parece aleatória. Há um esforço claro de reposicionamento: manter conexão com o eleitorado bolsonarista, mas ampliar pontes com o mercado e com os chamados “independentes”, um grupo que demonstra fadiga diante da polarização política. A mensagem implícita é estratégica: Flávio seria “Bolsonaro no sobrenome”, mas não necessariamente na forma ou no tom. 

Na outra ponta, Romeu Zema adota um movimento distinto. Se antes cultivava a imagem do gestor discreto, próximo do cotidiano — o político do “cafezim” e do pão de queijo —, agora assume um perfil mais combativo. Surge o Zema “franco-atirador”, com discurso mais duro e direcionado, especialmente contra o Supremo Tribunal Federal. 

Essa mudança indica uma leitura clara de cenário: há um espaço a ser ocupado junto ao bolsonarismo mais fiel, aquele que mantém alta mobilização e engajamento político. Ao radicalizar o tom, Zema parece buscar conexão direta com essa base, reforçando pautas que alimentam a polarização. O uso intensivo de ferramentas digitais e inteligência artificial também sugere uma estratégia para ampliar alcance e engajamento nesse público. 

A diferença entre os dois pode ser compreendida à luz do conceito de contrato de comunicação, desenvolvido por Patrick Charaudeau. Nesse modelo, todo discurso pressupõe um destinatário específico — um “alvo” para o qual o enunciado é construído —, mas sua eficácia depende da adesão do interlocutor. 

No caso de Zema, o alvo é relativamente claro: os bolsonaristas mais ideológicos, os chamados “raiz”. Seu discurso é moldado para esse público, com alto grau de identificação. Já Flávio parece operar em um terreno mais complexo, tentando equilibrar diferentes interlocutores — a base do pai, o mercado e os eleitores moderados. Seu desafio é maior: construir uma narrativa que seja, ao mesmo tempo, reconhecível para os bolsonaristas e aceitável para quem busca uma alternativa menos polarizada. 

A questão que permanece em aberto é estratégica: Zema conseguirá capturar essa base mais fiel de forma mais eficaz do que o próprio herdeiro político de Bolsonaro? Ou o sobrenome ainda será o principal ativo na disputa por esse eleitorado? 

Por ora, os sinais são de caminhos divergentes dentro de um mesmo campo político — um apostando na moderação calculada, outro na intensificação do confronto. O desfecho dependerá menos da intenção de quem comunica e mais da disposição do público em “assinar” esse contrato de comunicação. 

  

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