Por Gabriela Sales
Foram sete dias na Zona da Mata mineira que dificilmente vão sair da memória. Dias de lama nas ruas, de móveis destruídos nas calçadas, de olhares cansados, mas também de algo que nenhuma enchente conseguiu levar: a solidariedade.
Entre Ubá e Juiz de Fora, a rotina ainda é de reconstrução. O cenário é duro. Casas marcadas pela altura da água, comércios fechados, bairros inteiros tentando entender por onde recomeçar. Mas, no meio da devastação, o que mais aparece é gente ajudando gente.
Em muitos pontos, quem perdeu quase tudo ainda encontra forças para estender a mão ao vizinho. Há quem divida comida, quem ofereça abrigo e quem passe o dia inteiro ajudando a limpar casas que não são as suas. A tragédia escancarou perdas materiais imensas, mas também revelou uma rede de solidariedade que parece crescer a cada dia.
Talvez uma das histórias mais simbólicas dessa semana seja a da empresária Edna Ferreira. Durante o temporal que atingiu a região, ela passou mais de três horas abraçada a um poste, lutando contra a força da água. Sobreviveu. E, mesmo depois de enfrentar o que muitos considerariam impossível, mantém viva a esperança de reencontrar o namorado, Luciano, que foi levado pela enxurrada ainda com vida. A fé dela atravessa os dias de incerteza e se transforma em combustível para continuar.
Histórias como a de Edna não são isoladas. Em várias ruas, moradores contam que a casa resistiu, mas o trabalho desapareceu com a enchente. Empresas pararam, estoques foram perdidos, máquinas ficaram inutilizadas. Muitos trabalhadores não sabem sequer se haverá salário no fim do mês.
Ainda assim, voltam todos os dias. Limpam o que restou, organizam o que pode ser salvo e ajudam a colocar a economia local de pé outra vez. É uma tentativa coletiva de não deixar que o desastre defina o futuro da cidade.
A preocupação continua. A região segue em alerta por causa da possibilidade de novas chuvas. Cada nuvem mais carregada no céu traz um silêncio imediato e olhares apreensivos. O trauma ainda está presente.
Mas, mesmo com o medo, ninguém parece disposto a desistir.
Ao mesmo tempo em que a solidariedade marcou esses dias, também ficou evidente a indignação de muitos moradores com a presença de políticos que transformaram a tragédia em palco. Em meio à dor e à perda, houve quem aparecesse apenas para fotos, discursos e promessas. Para quem está lidando com a lama dentro de casa, a sensação é de desrespeito.
Sete dias na Zona da Mata me revelaram que a população ainda tenta voltar à normalidade. A reconstrução será longa. Há muito o que limpar, reparar e recomeçar.
Mas se algo ficou claro nesse período é que, ali, entre a lama e os escombros, a esperança continua de pé. E ela tem rosto, nome e mãos sujas de barro, as mesmas mãos que ajudam a reconstruir uma cidade inteira.