POR ADRIANA FERREIRA
Não sei quem vai ler este artigo daqui a 50 anos. Será meu filho? Serão meus netos? Jovens jornalistas? Talvez eu mesma, aos 94 anos, ainda lúcida! Escrevo para o futuro. Registro aqui as minhas dores e reflexões diante de uma das maiores catástrofes ocorridas na Zona da Mata mineira. Registro aqui memórias do presente que farão parte do futuro.
Acordei hoje pensativa, louca para escrever. As palavras, para mim, são libertadoras. A partir do momento em que as frases vão se formando, vou aliviando meu coração e minha alma. Escrita terapêutica? Talvez seja.
Juiz de Fora está devastada. São dezenas de mortos e os números só crescem. Cidades no entorno também sofrem com a chuva que veio de forma torrencial. Um desastre que evidencia anos de negligência do poder público: construções em áreas de risco, falta de planejamento urbano adequado aos novos tempos, problemas de drenagem, de controle de cheias dos rios e muito mais. Vocês, do futuro, ainda têm isso? Espero que, quando estiverem lendo este artigo, esse problema seja algo que tenha definitivamente ficado no passado. Mas, por enquanto, aqui, em 2026, ele é algo latente. É um problema que se perpetua em outras localidades também.
Vocês já estão lidando bem com as mudanças climáticas? Em 2026, ainda existem aqueles que parecem não acreditar que o mundo mudou. Espero que a temperatura dos oceanos tenha caído, que ainda haja indícios de geleiras e que haja mais verde em vez de concreto. Como vocês cuidam do lixo? Por aqui, colocamos em sacos plásticos, e eles vão para aterros ou lixões. Tem gente que nem separa. Coloca tudo misturado, como se o caminhão de lixo tivesse o poder mágico de fazer desaparecer tudo o que recolhe. Não querem nem saber para onde vai, acredita? Acham que essa história de aquecimento global, de cuidar do futuro, é bobagem.
Volto para as cidades da Zona da Mata. Pessoas perderam tudo. Pessoas perderam a família toda. A solidariedade existe. Existem pessoas boas no mundo em que vivo. Mas também existem aproveitadores e sensacionalistas. Pessoas que se limitam a dizer “que tragédia”, “que triste”, “que absurdo”, que tentam arrancar compaixão de dentro de si, mas cujas palavras não condizem com as ações. Sentem-se confortáveis em mostrar a tragédia do outro em nome da audiência, em nome do “furo”. Uma disputa para saber quem tem a imagem mais chocante. Contraditório isso. Mas acredite: isso existe. Espero que, no futuro, as pessoas tenham mais empatia. Dor não é espetáculo. Não mesmo.
Ah, como são os políticos no futuro? Ainda existe negacionismo, polarização, disputa por votos, mesmo que sujos de lama e de lágrimas? Ainda existem emendas parlamentares? Ainda existe dinheiro na cueca ou 400 mil, em notas de 100 e 200, guardados em apartamento? Acredita que vi tudo isso? Vejo, neste momento de tragédia latente, políticos que nunca pisaram em Juiz de Fora chegarem em aeronaves, com coletes da Defesa Civil, simplesmente para fazer fotos e registros nas redes sociais. Mostram-se preocupados na cidade, franzem a sobrancelha, mas, quando decolam, são capazes de esquecer tudo o que viram. Ah, existem aqueles que “esquecem” também de investir em ações de prevenção. Lembram-se disso quando o caos já está instalado.
Espero que a política aí seja diferente da que vejo hoje. Que a dor do outro seja respeitada como merece. Que a solidariedade seja genuína e não uma busca por cliques. Que o presente não fique no passado, porque precisamos dele para construir o futuro. Aprendamos!