Semear memória para não colher esquecimento

Por: Adriana Ferreira

Por que temos tanta dificuldade em olhar para o passado? Seria pelo fato dele despertar dor? De reabrir cicatrizes que insistimos em manter fechadas? Ou pelo medo de encarar aquilo que poderia ter sido diferente, e não foi? 

O passado nos confronta. Ele exige responsabilidade, reflexão e, muitas vezes, coragem. Talvez por isso seja tão comum o desejo de apagá-lo ou silenciá-lo. No entanto, esquecer não nos protege, apenas nos fragiliza. 

Já percebeu como o Brasil vem despontando no cenário audiovisual mundial justamente por histórias que pertencem ao nosso passado? O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor de O Agente Secreto, afirmou em Cannes que o país sofre de uma “amnésia autoimposta” e de um “problema crônico de preservação da memória”, algo que acabou sendo normalizado ao longo do tempo. A arte, nesse contexto, surge como resistência e denúncia. Precisamos ser resistência. 

Penso no que seríamos sem a memória. Se somos seres formados por histórias, o passado se faz presente em nós o tempo todo. É ele que nos permite saudar o que foi bom, reconhecer conquistas, mas também repensar escolhas, identificar erros e, a partir disso, fazer diferente. Quando apagamos o passado, o que sobra? Sobram indivíduos sem autocrítica, sem noção de valor coletivo, cada vez mais individualistas, que privilegiam a matéria em detrimento do crescimento espiritual, da empatia e do senso de comunidade. Essa ausência se transforma em uma chaga social que se perpetua ao longo do tempo. 

Na semana que marca os sete anos do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, fui atravessada pela urgência de falar sobre memória. Sobre lembranças. Sobre a luta permanente por um mundo diferente e mais justo. É preciso falar para não esquecer. 

Todos os dias 25, em Brumadinho, é feita a chamada dos 272 nomes das vítimas da tragédia da Vale. Cada nome ecoa e a resposta vem dos familiares, que resistem à dor e ao tempo: AUSENTE. 

Ausente para quem ainda hoje recorre para não fazer justiça. Ausência de respostas, ausência de responsabilização, ausência de empatia. Ausente para os mais de cem órfãos que perderam pai, mãe ou ambos. No Memorial Brumadinho, estão as lembranças. A memória preservada. O respeito pela história de cada vida, das joias que seguem brilhando no coração de quem ficou. 

A cartinha de Dia dos Pais que um dia foi escrita não será mais lida. A camisa do Galo ou do Cruzeiro permanece dobrada. CDs, chapéus, bonés, jalecos, medalhas de corrida, imagens de Nossa Senhora, da Sagrada Família, de São Jorge, terços, bíblias. Objetos simples, cotidianos, expostos ao lado de rostos que nos lembram, a cada passo, que essas vítimas não são números. São histórias interrompidas que precisam ser contadas e recontadas para que não caiam no esquecimento. 

Semear memória é um ato necessário. Que sejamos, todos nós, contadores de histórias e construtores de um mundo diferente. Um mundo onde lembrar seja também um compromisso com o futuro. 

 

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