Por Gabriela Sales
A aprovação, em primeiro turno, do Projeto de Lei 574/2025, de autoria do Executivo municipal, em reunião extraordinária da Câmara Municipal de Belo Horizonte, reacende um debate necessário e urgente sobre o futuro do hipercentro da capital mineira. Mais do que uma proposta urbanística, o texto escancara uma questão estrutural: qual cidade se quer construir e, sobretudo, para quem?
A iniciativa da Prefeitura aposta na revitalização da região central por meio de uma ampla operação urbana, com incentivos à ocupação, inclusive habitacional. Entre os pontos que mais chamam atenção está a possibilidade de ampliação de moradias, inclusive populares, em áreas hoje marcadas por vazios urbanos, degradação e subutilização. Em tese, trata-se de uma tentativa de devolver vitalidade ao coração da cidade, um movimento já observado em outras capitais brasileiras.
No entanto, o debate não pode se limitar ao perímetro estrito do hipercentro. É preciso olhar para o entorno e, especialmente, para bairros tradicionais da região Nordeste de Belo Horizonte, historicamente ligados à dinâmica central. A proximidade geográfica com o centro sempre fez dessas localidades espaços pulsantes, com forte identidade comunitária e econômica.
Mesmo para quem não viveu os chamados “anos dourados” desses bairros, há um reconhecimento coletivo de sua importância. Eram regiões formadas, em grande parte, por famílias que ajudaram a construir Belo Horizonte. Trabalhadores, servidores públicos da Prefeitura e do Estado, comerciantes, muitos deles responsáveis por negócios familiares que atravessaram gerações. Havia ali uma essência típica do interior de Minas: ruas onde todos se conheciam, relações de confiança e um comércio enraizado na tradição.
Hoje, a realidade é outra e exemplos concretos ajudam a dimensionar a gravidade da situação. O complexo da Lagoinha, historicamente um dos berços culturais da cidade, enfrenta um cenário de degradação visível, marcado pelo acúmulo de lixo, presença constante de moradores em situação de rua e o avanço da violência.
Na Rua Além Paraíba, uma das vias mais simbólicas da região, o abandono urbano é perceptível: sujeira espalhada, imóveis degradados e a sensação de insegurança predominando no cotidiano de quem ainda resiste no local.
Em bairros como Bonfim e Colégio Batista, moradores relatam registros frequentes de assaltos, o que reforça a percepção de vulnerabilidade e medo. A insegurança tem alterado rotinas, afastado frequentadores e contribuído para o esvaziamento progressivo dessas áreas, que já foram sinônimo de convivência comunitária e tranquilidade.
E essa transformação não é apenas um dado urbano, ela também é pessoal. Quando eu tinha seis anos, minha vida se concentrava entre a Praça 12, a rua Mariana e a rua Itatiaia, no bairro Bonfim.
O que existia ali era, de fato, um bairro com cara de interior: ruas calmas, vizinhança conhecida, relações próximas, um cotidiano simples e acolhedor. Eu, no auge do meus oito, nove anos, subia a rua Mariana com o dinheiro enrolado na mão em direção ao “Açougue do Marleno”, buscar a carne encomendada por minha avó Anna pelo telefone. Minha única preocupação era não perder o dinheiro pelo caminho, já que subia a rua pulando amarelinha imaginária.
Com o passar dos anos, esse cenário foi dando lugar à especulação imobiliária, ao surgimento de casarões abandonados e, gradativamente, ao avanço da violência e da sujeira, uma deterioração que contrasta com a localização privilegiada, tão próxima do centro da cidade.
O que se vê, portanto, é o avanço da degradação urbana e social. A presença crescente de pessoas em situação de rua, o aumento do consumo de drogas, o acúmulo de lixo nas vias e a violência cotidiana transformaram profundamente o perfil desses bairros. O abandono do poder público, percebido por moradores, contribui para a perda de identidade e para o enfraquecimento dos laços comunitários.
Diante desse cenário, o Projeto de Lei 574/2025 surge como uma oportunidade, mas também como um alerta. A requalificação urbana não pode ser entendida apenas como uma transformação física do espaço. Revitalizar não é apenas construir ou reformar: é reocupar com sentido, preservar memórias e garantir dignidade.
Se, por um lado, a ampliação de moradias populares no hipercentro pode contribuir para reduzir o déficit habitacional e estimular a ocupação, por outro, é fundamental que esse movimento não provoque novos processos de exclusão ou gentrificação. A cidade não pode expulsar, silenciosamente, aqueles que historicamente ajudaram a moldá-la.
Além das intervenções estruturais, a Prefeitura de Belo Horizonte precisa avançar em políticas integradas que envolvam segurança pública, assistência social e, sobretudo, resgate cultural. É necessário devolver a esses bairros não apenas infraestrutura, mas também pertencimento. Valorizar o comércio local, incentivar atividades culturais e recuperar espaços de convivência são passos essenciais para reconstruir laços comunitários.
A revitalização do hipercentro será, de fato, bem-sucedida apenas se dialogar com seu entorno e reconhecer a importância histórica e social dessas regiões. Mais do que um projeto de cidade, trata-se de um compromisso com a memória, com a identidade e com as pessoas que fizeram, e ainda fazem, Belo Horizonte existir.