POR ADRIANA FERREIRA
Fiquei meio off-line no sábado. No domingo, abri as redes sociais e logo apareceu um vídeo que me chamou a atenção: um jogador do Red Bull Bragantino culpando uma mulher pela desclassificação do clube. Assisti, vi de novo, conferi a veracidade… Seria IA? Se fosse, seria igualmente de muito mau gosto. Por incrível que pareça, era verdade.
O zagueiro Gustavo Marques disse, com todas as letras e em alto e bom som: “Não adianta jogar com São Paulo, Palmeiras, Corinthians e colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Era um sonho nosso chegar à semifinal, ou até à final, mas ela acabou com o nosso jogo. Acho que a Federação Paulista tem que olhar para jogos desse tamanho e não colocar uma mulher”. Uma indignação tomou conta de mim diante daquilo. Que absurdo, pensei! Fiquei refletindo ao ver a repercussão de uma declaração, no mínimo, infeliz. Agora, trago meu ponto de vista.
Ele tenta desqualificar a atuação da árbitra Daiane Muniz pela derrota. É difícil assumir o erro quando se tem uma mulher para culpar… É mais fácil, quando se está rodeado de homens, depreciar uma mulher. O que aconteceu é mais um retrato do que nós vivemos diariamente. Isso quando falam explicitamente, porque o preconceito, muitas vezes, ocorre de forma silenciosa.
Gustavo diz que a árbitra “acabou” com o sonho da equipe. Fico pensando: quantos homens já tentaram acabar com o sonho de uma mulher? Quantas vezes procuramos microfones e eles não nos encontraram? Quantas vezes a vontade era gritar diante da injustiça e do preconceito, mas os alto-falantes estavam no mudo? Quantas vezes falamos, mas a sociedade parece não escutar?
Penso no chamamento que o papa Leão XIV nos faz: pensar antes de falar, ter cuidado com as palavras que ofendem e magoam. Será que Gustavo Marques tem noção de que suas declarações ferem não apenas Daiane, mas uma legião de mulheres? A vigilância começa em cada um de nós.
Dias atrás, ouvi algo que me deixou engasgada. Diante do pedido de uma mulher para se ausentar da equipe por um motivo relacionado ao filho, um homem teve a coragem de dizer, diante de várias pessoas, que, se toda vez que surgisse algo envolvendo o filho ela precisasse faltar, ficaria complicado. E aqui estou sendo elegante, porque a fala foi recheada de palavrões e deboche.
Naquele momento, eu queria que ele se colocasse no lugar dessa mãe. Queria que imaginasse o que faria se fosse o filho dele precisando de cuidado — filho cujo nome da professora, talvez, ele nem saiba. Queria que refletisse sobre quantas vezes uma mulher precisa se desdobrar para dar conta de tudo, enquanto ainda precisa ouvir esse tipo de comentário.
Esse joga no mesmo time de Gustavo Marques. Não, não é o Red Bull Bragantino. Joga no time dos machistas, dos que precisam cair na real de que o mundo não gira em torno deles. Joga no time daqueles que ainda vão ver — e muito — mulheres cuidando dos filhos e trabalhando, mulheres apitando jogos, atuando como atletas e ocupando todos os espaços que desejarem.
Eles precisam mudar. Com urgência. Mas será que querem? Só sei que nós estamos preparadas para reagir.
OBS.: O atleta Gustavo Marques pediu desculpas à árbitra Daiane Muniz e também se retratou publicamente pelo que disse. O Red Bull Bragantino repudiou a declaração, assim como os Ministérios das Mulheres e do Esporte. A Federação Paulista de Futebol afirmou que vai apoiar Daiane Muniz, que foi amplamente elogiada por sua atuação.