POR GABRIELA SALES
Mesmo com desemprego no menor nível da história, quase metade dos brasileiros vê piora na economia
Os indicadores macroeconômicos melhoraram, mas isso não se traduziu em sensação de alívio no bolso. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira mostra que 43% dos brasileiros avaliam que a economia piorou nos últimos 12 meses. Apenas 24% percebem melhora, enquanto 30% dizem que a situação ficou igual. O dado revela um descompasso entre números oficiais e a experiência cotidiana da população.
O levantamento, encomendado pela Genial Investimentos, ouviu 2.004 pessoas entre os dias 5 e 9 de fevereiro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A percepção negativa ocorre mesmo diante de indicadores considerados positivos: a taxa média anual de desemprego ficou em 5,6% em 2025 — o menor patamar desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. O rendimento médio também atingiu nível recorde, e a inflação, embora ainda pressione o orçamento, permanece mais controlada do que em anos anteriores.
Para analistas, o ciclo de alta dos juros ajuda a explicar essa contradição. O encarecimento do crédito, a desaceleração da atividade econômica e o aumento da inadimplência reduzem a sensação de estabilidade, sobretudo para as famílias mais endividadas.
O peso dos alimentos e do poder de compra
A inflação oficial medida pelo IPCA subiu 0,33% em janeiro, levemente acima das projeções. No acumulado de 12 meses, alcança 4,44%. Embora não seja um patamar explosivo, os preços seguem pressionando o consumo — especialmente no supermercado.
Para 56% dos entrevistados, os alimentos estão mais caros. Apenas 18% disseram perceber queda nos preços, e 24% avaliam que os valores ficaram estáveis. A percepção praticamente não mudou em relação a janeiro.
O impacto aparece de forma ainda mais clara quando a pergunta é direta: com o dinheiro que recebem hoje, os brasileiros conseguem comprar mais ou menos do que há um ano? Para 61%, compram menos. Apenas 15% afirmam que conseguem comprar mais, e 23% dizem manter o mesmo padrão.
Os números indicam que, mesmo com mercado de trabalho aquecido, o custo de vida continua sendo o principal termômetro da economia para a população.
Emprego: dado positivo, percepção dividida
Apesar da taxa de desemprego historicamente baixa, 49% dos entrevistados avaliam que está mais difícil conseguir emprego hoje do que há um ano. Outros 39% dizem que está mais fácil, e 5% não veem mudança.
A diferença entre o dado estatístico e a percepção pode estar relacionada à qualidade das vagas, ao crescimento do trabalho informal e à renda ainda insuficiente para recompor perdas acumuladas nos últimos anos.
O resultado da pesquisa reforça que a avaliação da economia não depende apenas de indicadores agregados, mas da experiência concreta das famílias com preços, crédito e poder de compra. Enquanto o mercado celebra números positivos, boa parte da população ainda sente que a recuperação não chegou por completo ao dia a dia.