Eu quero é botar meu bloco na rua

Por Rafael Campos

A vida carnavalizada irrompe quando as hierarquias do cotidiano se dissolvem. Foliões encarnam outros papéis, movidos por uma liberdade quase utópica. “Eu queria que essa fantasia fosse eterna”, sussurra a música. Sob o riso ambivalente e o êxtase do brincar, a rua se revela como território vivo. Sim. Chegou o carnaval. 

Em Belo Horizonte, os números da festa impressionam: 630 blocos de rua, cerca de 6 milhões de foliões e R$ 1,2 bilhão injetados na economia da capital. Grandes patrocínios? Ausentes. Talvez porque essa folia resista ao formato “vendável”, fiel à essência de ocupar o espaço público em oposição à lógica mercantil. Não há camarotes nem abadás — ao menos por ora. Como lembra Luiz Antônio Simas, em O Corpo Encantado das Ruas, “o carnaval é uma festa de reexistência”. 

Mas para compreender essa explosão de gente e de sentidos, é preciso olhar para trás. Diferentemente de um passado recente, a cidade hoje pulsa carnaval porque, antes, aprendeu a ocupar. Tudo começou com a chamada “Praia da Estação”. O movimento nasceu de um decreto — ou melhor, apesar dele. Em 2009, o então prefeito Marcio Lacerda publicou um ato administrativo proibindo eventos na Praça da Estação, espaço histórico e emblemático da capital. A decisão foi o estopim de uma reação criativa: pessoas ocuparam o local, reinventaram seu uso e fizeram ecoar, em outros corações e mentes, o desejo de tomar as ruas e avenidas de Belo Horizonte. O carnaval veio, assim, como subterfúgio natural para catalisar um desejo coletivo de ocupação reprimido. 

Nos anos seguintes, a festa cresceu a tal ponto que a administração municipal precisou correr atrás para organizar e oferecer estrutura ao evento. Neste ano, por exemplo, R$ 3,5 milhões foram distribuídos aos blocos de rua, que ainda reivindicam mais atenção, recursos e apoio. O pleito não é injustificável: foram eles os principais propulsores do retorno da folia de rua na cidade. 

A despeito de problemas, demandas e carências, o carnaval transformou e ressignificou a cultura da capital mineira. Por isso, caro leitor, faço um convite — seja você fã da folia ou não: saia às ruas e avenidas de Belo Horizonte e observe, ainda que por alguns minutos, a cidade em outro ritmo. É como se, enfim, as pessoas sentissem que o território lhes pertence de verdade. 

Foliões, ocupai-vos.

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