POR RAFAEL CAMPOS
O debate sobre discurso e comunicação política passa, inevitavelmente, pela forma como lideranças constroem sentido, coerência e previsibilidade diante do público. Mais do que propostas técnicas, o que frequentemente define a conexão com o eleitor é a clareza narrativa — a capacidade de dizer “quem sou”, “o que defendo” e “para onde vou” sem ruídos. Conta, portanto, o ethos de quem comunica, entendido como o “modo de ser”, o “caráter” de quem enuncia.
Nesse contexto, a teoria semiolinguística de Patrick Charaudeau oferece uma chave interessante ao distinguir dois modos de atuação discursiva por meio das metáforas “expedição” e “aventura”.
A expedição pressupõe planejamento, visão definida e domínio do percurso. Já a aventura é marcada por incertezas, mudanças de rota e comunicação menos previsível. Aplicando essa lente ao cenário político contemporâneo, observa-se como diferentes lideranças — e até mesmo instituições — se posicionam, consciente ou inconscientemente, nesses dois polos.
Há casos em que a comunicação se constrói de forma direta, sem rodeios e facilmente assimilável. Uma linguagem mais simples e acessível reforça a percepção de autenticidade. Para o público, torna-se evidente não apenas o destino pretendido, mas também o caminho escolhido para alcançá-lo. Trata-se de uma comunicação de expedição: há coerência entre discurso, postura e estratégia. Isso não significa ausência de críticas ou limitações, mas revela um ativo poderoso na política contemporânea — a previsibilidade.
Em contraste, há situações em que a narrativa se torna mais instável. Discursos que antes eram claros, técnicos e alinhados a uma identidade definida passam a apresentar inflexões pouco explicadas, aproximações inesperadas ou mudanças de tom. O problema não está necessariamente na mudança de posicionamento — algo legítimo e, muitas vezes, necessário —, mas na ausência de uma narrativa que explique essa transição de forma convincente. Sem isso, o percurso se assemelha mais a uma aventura: o destino pode até existir, mas o caminho parece errático, como se guiado por uma bússola imprecisa.
Esse contraste evidencia um ponto central: na política, a falta de clareza discursiva pode ser tão prejudicial quanto a ineficiência técnica. A comunicação não é apenas um instrumento acessório; ela é parte constitutiva da própria ação política. Quem não consegue traduzir suas intenções de forma compreensível compromete sua capacidade de mobilização e de construção de confiança.
A experiência política recente mostra que trajetórias marcadas por comunicação linear, reconhecível e coerente tendem a criar vínculos mais sólidos com o público. Ao longo do tempo, a construção de uma identidade discursiva sem grandes ambiguidades se revela um fator decisivo para ampliar alcance e influência, muitas vezes superando até a sofisticação técnica das propostas apresentadas.
Dessa forma, o cenário político contemporâneo reforça uma lição fundamental: comunicar bem não é apenas falar muito ou ocupar espaços, mas sustentar uma narrativa consistente ao longo do tempo. Entre a expedição e a aventura, lideranças que conseguem alinhar discurso, identidade e estratégia tendem a estabelecer conexões mais duradouras.
No fim, a política é, também, uma disputa de narrativas. E, nessa arena, não vence necessariamente quem tem o melhor mapa técnico, mas quem consegue convencer que sabe exatamente para onde está indo — e como pretende chegar lá.