Educação em chamas

POR ADRIANA FERREIRA


Quem me conhece sabe que escrevo quando situações do mundo real me atingem, em forma de encantamento ou decepção, não importa. Só sei que escrevo. As palavras libertam o que está dentro de mim e é sobre elas que escrevo hoje.  

 

As palavras emolduram parte do conhecimento que adquirimos ao longo da nossa vida, por meio da leitura. Nesses últimos dias, fiquei perplexa com o crime que destruiu a “Casa do Saber”, uma biblioteca comunitária, localizada no bairro Nova Granada, na região oeste de Belo Horizonte. Um local idealizado e construído por pessoas em situação de rua com apoio da comunidade. Mais de mil exemplares viraram pó depois de um incêndio que teria sido cometido por dois marginais. Quando me deparei com a notícia, logo veio o pensamento: “Meu Deus, é o retrato do que a educação brasileira vive hoje! 

 

Eu explico e trago números. O Censo Escolar mostra que quase 15% dos alunos frequentam escolas públicas sem sistema de saneamento. Quase cinco mil escolas no país não têm acesso a energia elétrica. Já o IBGE mostra que quase dez milhões de estudantes entre 15 e 29 anos estão fora da escola, sem concluir a educação básica. Apesar do índice de analfabetos ser o menor da história, vivemos hoje uma situação de analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que sabem ler, mas não compreendem o que leram. Ele representa quase 30% da população.  

 

O incêndio na “Casa do Saber” só confirma o que os números mostram. A educação está sendo negligenciada. E se a educação é a saída para o futuro, como dizem, algo precisa mudar com urgência. Fiquei pensando naqueles dois sujeitos que atearam fogo na “Casa do Saber”. Será que eles abriram algum livro na vida? Será que conhecem Machado de Assis, Graciliano Ramos, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade? Será que conhecem os escritores da nova geração? Será que terminaraam o ensino fundamental? Será que em algum momento foram picados pelo prazer de abrir um livro e não conseguir parar de ler? Simplesmente colocaram fogo em tudo. Destruição pela destruição. Vandalismo pra “zoar”? Não dá pra ser assim.  

 

É preciso sabedoria para viver igual gente. Na etimologia, “sabedoria” deriva do latim sapere, que significa tanto “ter sabor” quanto “ter discernimento”, unindo saber e sabor como experiências inseparáveis. A origem da palavra já diz tudo. A “Casa do Saber” proporcionava tudo isso. Saber e sabor. Prazer de transformar o conhecimento em repertório pra vida. Porque a educação também é isso, saber ser gente e deixar de ser bicho.  

 

OBS: A Casa do Saber já foi alvo de um incêndio em 2017. Novamente a comunidade se une para reconstruir o local que já faz parte da cultura do bairro. A prefeitura afirmou que vai reforçar a fiscalização na região, por meio da Guarda Municipal.  

 

 

 

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