Diante da dor dos outros

AFP__20260224__98U87ZD__v1__HighRes__BrazilWe_Rafael Campos Amaral

POR RAFAEL CAMPOS


Famílias enlutadas, pessoas que perderam tudo o que tinham. Num piscar de olhos, um barranco desmorona e os sonhos também. Haja resiliência, fé e esperança para respirar fundo e seguir em frente. Observamos atônitos – mais uma vez – a tragédia provocada por fortes temporais. Desta vez, Juiz de Fora e Ubá, cidades da Zona da Mata Mineira, foram devastadas pela força das chuvas. O volume acumulado de 584 mm em fevereiro – o dobro da média histórica – desabou em poucas horas, com picos de até 150 mm em seis horas.

Avisos sonoros e mensagens no celular se tornam alertas frágeis diante da tragédia. Cerca de 50 mortes foram confirmadas até agora na região da Zona da Mata, com dezenas de desaparecidos; bairros como JK, Santa Rita e Cerâmica sofreram soterramentos e o transbordamento do Rio Paraibuna. A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), decretou estado de calamidade pública e luto de três dias, enquanto bombeiros e Defesa Civil atuam em resgates sob risco de mais chuvas intensas até o fim da semana.

Susan Sontag, em seu livro Diante da dor dos outros, nos provoca: será que imagens de atrocidades ou tragédias humanas são suficientes para impor uma mudança? Ao vermos pessoas, casas e carros sendo arrastados pelos rios que se formam nas vias, essas cenas nos tocam em que medida? Ouso dizer que gera uma comoção, lágrimas vêm aos nossos olhos, a voz embarga ao ver e ouvir relatos desesperados, mas… quando a água baixa, a vida segue o seu curso.

A dor é banalizada, ela nos anestesia. E não se converte em ação política. Há, por exemplo, um projeto do deputado mineiro Pedro Aihara (PRD), que está parado na Câmara Federal: o PL 4105/2024 (Política Nacional de Prevenção, Mitigação, Preparação e Resposta a Inundações e Alagamentos Severos). Ele está na etapa inicial de tramitação pelas comissões da Câmara dos Deputados, em regime ordinário e apreciação conclusiva pelas comissões. Dentre outras medidas, a proposta obriga a execução de obras de drenagem urbana e rural, mapeamento de áreas de risco e demarcação de zonas vulneráveis; integra gestão de risco e ordenamento territorial. Agora, talvez, ele ande.

Afinal, todo ano a história se repete. O que muda é o local da tragédia. Em 2026, por ora, foi a vez de Juiz de Fora e Ubá. Autoridades sobrevoam vestindo coletes da Defesa Civil. A culpa? Da ausência de planejamento urbano? Das inúmeras vezes em que foram ignorados os avisos de cientistas sobre a intensidade dos temporais? Do negacionismo das mudanças climáticas? Não! A culpa foi do acaso. Choveu demais!

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