POR RAFAEL CAMPOS
Antes de dedilhar qualquer linha de raciocínio, gostaria, se possível, de alinharmos as expectativas, caro leitor — você e eu. Gostaria de saber se estamos na mesma página, ao menos no que se refere ao trânsito da nossa capital.
Estamos de acordo de que, a cada ano que passa, a situação se agrava? O Sistema Move, que nasceu antes da Copa de 2014 com o propósito de ter corredores interligados operando em sua plenitude, falhou — ao menos é o que parece. As ciclovias, idem. O metrô, bom, até que está avançando, mas a passos lentos. As pessoas ainda não estão muito afeitas à ideia de deixar o carro para aderir ao transporte público, até porque ele segue na mesma toada: não é lá muito atrativo.
Vale dizer que este que escreve tem o vício do otimismo. Ainda acredita que algo de bom pode acontecer. Ah, utopia!
Contudo, enquanto aquilo que já foi ventilado, debatido e disseminado não sai do papel, que tal ampliarmos os horizontes? Mudar o nosso horizonte de expectativas, pensar fora da caixa, da curva e por aí vai.
Nova York pensou. Há cerca de um ano, foi implantada por lá a taxa de congestionamento. Trata-se de uma espécie de pedágio urbano aplicado em regiões onde o acúmulo de veículos é maior. Resultado?
O portal Caos Planejado repercutiu os impactos — todos positivos. Foi registrada redução de 11% no número de veículos circulando no centro de Manhattan, o que representa 27 milhões de viagens a menos em um ano (média de 73 mil veículos por dia).
A entrada de caminhões na área diminuiu 18%, incentivando a otimização da logística e entregas fora dos horários de pico. A velocidade média dos automóveis dentro da zona aumentou 23%, enquanto a dos ônibus subiu 2,4%, revertendo uma tendência anterior de queda. Os tempos de deslocamento também diminuíram para motoristas fora da zona de cobrança.
O número de passageiros aumentou. As viagens de metrô para a área de pedágio cresceram 9%; as de ônibus expressos, 7,8%; e as de ônibus locais, 8,4%. Houve ainda queda nos acidentes: redução de 7%. Também foi registrada diminuição de 40% no número de mortes no trânsito. Esses dados indicam, portanto, que a medida foi eficaz ao incentivar padrões de deslocamento mais sustentáveis, sem prejudicar a economia local.
A experiência nova-iorquina é interessante e instiga não apenas sua aplicação por aqui, mas também a busca incessante por soluções viáveis. O portal destaca ainda, como lição, a gestão baseada em dados e transparência. Afinal, Nova York utilizou relatórios oficiais detalhados desde o início da implantação, o que reduziu resistências à ideia.
Que essa ou outra solução seja colocada na mesa para o trânsito de BH, uma vez que o custo de não fazer nada pode ser bem mais alto do que o de qualquer pedágio.