Por Rafael Campos
Sempre que estamos diante de uma crise, uma pergunta nos alcança: como viemos parar aqui, afinal? Nessa busca desenfreada por respostas, somos convocados a revisitar o passado. Um bom exercício para observar esse movimento é olhar para as nossas redes sociais nas últimas semanas: pílulas nostálgicas em que a polarização era menos raivosa e mais republicana.
O filósofo Zygmunt Bauman, ao refletir sobre as transformações da sociedade contemporânea, ajuda-nos a pensar esse movimento de retorno. Em uma espécie de inversão da utopia, o futuro deixa de ser o lugar das possibilidades e o passado passa a ocupar esse espaço. Em vez de projetarmos aquilo que ainda podemos construir, idealizamos aquilo que já vivemos, ou acreditamos ter vivido, é o conceito de Retrotopia.
Na cena eleitoral brasileira, dois passados são convocados. De um lado, a nostalgia de uma ordem associada ao militarismo, à ditadura e a valores autoritários, como se a história pudesse ser corrigida pela simples restauração de um tempo que, para alguns, parece ter sido melhor. De outro, a memória das conquistas dos governos petistas, mobilizada como argumento central para reafirmar o legado de Luiz Inácio Lula da Silva. A campanha lulista, especialmente em sua estratégia de valorização dos governos anteriores, recorre à memória das realizações do partido sob a liderança de seu principal nome. É uma espécie de ode ao que foi construído, como se a lembrança das conquistas passadas, por si só, fosse suficiente para responder às angústias do presente.
Não se trata de negar a importância da memória. Conhecer a história é fundamental para compreender o presente e evitar que seus erros se repitam. O problema começa quando o passado deixa de ser referência e se transforma em destino; quando a política, em vez de apresentar novos horizontes, se limita a oferecer versões diferentes daquilo que já conhecemos. E o futuro? Tenho a impressão de que a política brasileira ainda nos oferece pouca, ou quase nenhuma, expectativa de futuro. Falta uma perspectiva capaz de mobilizar a sociedade em torno de um projeto consistente, que ultrapasse os limites de uma eleição e compreenda que transformações sólidas e duradouras exigem tempo, planejamento e compromisso coletivo.
Nietzsche escreveu que “é preciso ter ainda caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante”. E aqui não há nenhuma alusão partidária, naturalmente. O filósofo bigodudo, convenhamos, dificilmente caberia em qualquer palanque. A provocação, porém, permanece: talvez seja preciso reconhecer o caos do presente para imaginar algo que ainda não existe. Precisamos de menos passado como promessa e de mais futuro como projeto. Não se trata de apagar a história, mas de impedir que ela se torne o único repertório disponível para a política. Talvez a falta de entusiasmo de parte do eleitorado, que ainda encontra em referências militares um motivo de mobilização, diga menos sobre a força dessas figuras e mais sobre a fragilidade das alternativas que lhe são apresentadas. Quando o futuro não inspira, o passado, mesmo com suas contradições, torna-se um refúgio conveniente. Afinal, se a política não consegue nos convencer de que há algo melhor a construir adiante, resta-nos escolher qual passado queremos trazer de volta. E isso, convenhamos, é muito pouco para quem pretende governar o futuro.