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COMO LIDAR COM AS PERDAS

Você já parou para pensar como você lida com as perdas? Como você trabalha as frustrações? Qual é a melhor forma de encarar uma situação de crise ou uma perda?

Estas são apenas algumas questões que discutimos no programa, desta quarta-feira, dia 03 de novembro.


Estiveram conosco:

1. Carla Couto - psicóloga e orientadora de carreira

(31)  2552-7391

www.carlacouto.com.br

carlacouto@magnum.com.br

2. Eduardo Machado – educador e apresentador programa Sobre Todas as Coisas

www.tvhorizonte.com.br

3. Gláucia Rezende Tavares - psicóloga clínica, mestre em ciencias da saúde pela Faculdade de Medicina da UFMG, presidente do API - Apoio a Perdas Irreparáveis, organizadora do livro “Do Luto à Luta”

(31) 3282-5645

Leia abaixo a crônica escrita pelo apresentador do programa "Sobre Toda as Coisas, Eduardo Machado.

Finados

(Autoria: Eduardo Machado- educador e apresentador do programa “Sobre Todas as Coisas”)

“O dia de finados sempre me lembra experiências de perda. A idéia da morte cruza de novo o meu caminho...

Tento me livrar de lembranças e imagens incômodas, mas é inútil. A gente não controla os pensamentos. Assim como não se pode evitar certos problemas, o máximo que podemos fazer é aprender a lidar com eles, resolvi enfrentar o fantasma. Levei a fantasia fúnebre às últimas conseqüências e me vi, livre e conscientemente, elaborando uma espécie de testamento para quando chegar a minha hora.

Eu tinha 33 anos quando pensei ter chegado a minha hora. Foi assim, num susto: dormi na minha cama e acordei numa UTI. Sem aviso prévio, sem sintomas, um infarto agudo, bloqueio total da coronária direita, prognóstico sombrio.

Se naquele dia em que saí do UTI alguém me dissesse que eu teria, com certeza, mais um ano de vida eu agradeceria. É que um dos fantasmas que nos assombram numa UTI é o medo de morrer e não ter tempo de acertar as coisas, pedir os perdões devidos, dizer ‘eu te amo’ às pessoas que você ama em silêncio, fazer, quem sabe, aquela viagem sempre adiada, comprar uma bela casa e financiá-la em 30 anos pelo BNH, à prestação, com aquela cláusula de que, em caso de morte do mutuário, o imóvel fica quitado...

Em um ano, eu deixaria, tudo organizado...

Pois vinte anos se passaram e tenho vivido melhor e mais intensamente que antes.

Tenho buscado amar mais e melhor. Tenho tentado ser mais paciente, tolerante e compreensivo, inclusive comigo mesmo. Tenho relativizado a importância de muitas coisas e valorizado outras que antes passavam quase despercebidas.

A vida tem sido tão boa que até me esqueci daqueles tempos de sustos e medos onde até uma dor na unha do pé me levava para o plantão cardiológico, suando e com o coração disparado.

Quando chegar a minha hora não quero choros desesperados. Lágrimas tímidas, ternas, silenciosas, serão bem vindas. Elas devem ser expressão de uma saudade previamente consolada com a certeza de que logo, logo vai tornar-se uma lembrança gostosa, amena, alegre.

Quando chegar a minha hora não quero discursos ou palavras de despedida. Afinal, já estaremos juntos na eternidade. Se quiserem, deixem num canto do velório algumas cópias do que escrevi ao longo da vida, falando das coisas que gostei e das pessoas que amei.

Quando chegar a minha hora, que alguém se lembre de colocar uma música suave. O CD Ad Aeternum, da Graziela Cruz, é uma boa pedida. Poemas de Adélia Prado seriam também bem vindos. Numa TV, coloquem para rodar essa crônica. Será minha última história...

Quando chegar a minha hora dispensem, por favor, as tradicionais coroas de flores. São caras e secam muito rápido. Deixem as flores viverem onde estão plantadas. Afinal, como dizem, para que, por causa de uma morte, causar tantas outras? Além do mais, sou alérgico a pólen.

Quando chegar a minha hora, se o velório tiver que atravessar uma madrugada, os heróis da resistência que ficarem noite adentro podem, depois da meia noite, afastar-se um pouco, relaxar, formar aquelas rodinhas onde, devagarinho vai-se estabelecendo uma descontração maior. Então alguém conta um causo, outro lembra uma piada e o velório fica mais leve, mais fácil de levar.

Eu estarei tão atento quanto possível, rindo com vocês e atualizando meu repertório. Afinal, uma eternidade me espera e vou precisar de assunto para divertir os santos.

Quando chegar a minha hora, quero uma bela Eucaristia. Os padres meus amigos, que puderem, estejam presentes. Celebrem comigo a Ação de Graças pela vida que terá sido certamente curta para agradecer tantas alegrias.

Alguém se lembre de cantar “Tu és minha vida, Aprendendo a viver, Tocando em frente, “Valente” e outra músicas que falem de esperança e certeza da ressurreição.

O Evangelho a ser lido é a Parábola do Pai Misericordioso. Afinal, eu estarei voltando para sua casa, já sentindo o cheiro do churrasco e com saudades antecipadas daquele abraço.

Enfim...

Quero ser lembrado com suavidade. Nada de perda irreparável ou vazios traumáticos.

Que sintam, sim, saudades de mim, mas sem excessos.

E, para todos, uma certeza aprendida: independe da idade o tamanho da vida.

Toda vida é inteira, se verdadeira.

Ninguém vai cedo ou tarde.

Simplesmente chega a hora em que queremos viver uma vida maior do que esta pode oferecer

Essa é a hora em que parecemos morrer...

Mas, consolem-se.

Podem até chorar um pouco,

Repito, sem excessos.

Lembranças do que fui irão fluir

No vôo, vou

Me encontrar com Aquele que é.

Hoje, Sempre, Sou...".


 
Endereo
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